ALGO SOBRE A DOR*
Josué Borges de Araújo Godinho[1]
Schopenhauer, na obra Parerga e Paraliponema[2], no capítulo intitulado “Contribuições à Doutrina do Sofrimento do Mundo” discorre acerca da contradição, e, segundo sua doutrina, da supremacia da infelicidade sobre a felicidade.
Em todos os relatos da história da humanidade, os momentos de paz resumem-se em breves momentos, pequenos períodos. Os períodos de guerras e conflitos, por sua vez, ocupam a maior parte de sua história, inumeráveis foram e são crises. Um constante estado de lutas acompanha a vida do homem. Luta com a vida, com o tempo, luta com seus opositores.
Mas esse constante estado de lutas é necessário ao homem. Sua própria natureza o dispõe a isso. Ele necessita de necessidades, necessita de dificuldades, de suas preocupações. Estes fatores, por sua vez, funcionam como um impulso, como um alerta de que o constante movimento em função de algo é necessário. Bem como de que todos estão sujeitos a enfrentar suas dificuldades e desgraças. Imagine-se o caso da doutrina cristã. Deus não criou um mundo de necessidades e misérias. Ao contrario do que se pensa, essas são criadas pelo homem, pois lhe são necessárias. Suponhamos então, que este mesmo Deus criou um mundo onde todas as coisas funcionam perfeitamente, de sorte que o homem não tenha que mover o mínimo esforço para que tenha o necessário à sua sobrevivência, pois que tudo se encontra em seu fácil alcance. Inexistem problemas, trabalhos, doenças etc., em tais circunstancias pressupõe-se um constante estado de bem-estar e felicidade – situações que, nessas circunstancias eram condenadas por Schopenhauer -, pois levariam o homem ao tédio, um de seus extremos. Mas esse extremo, por sua vez, leva o homem a um outro extremo, o da necessidade – necessidade de movimentos, de percepções, ações etc. esse contraste entre o tédio e a necessidade de movimentos leva à explosão desse estado, justamente por essa falta de pressões ou conflitos, apontando sempre para um estado, ou estágio posterior. Em circunstâncias assim, o homem promoveria situações conflitantes, situações de crises, o que aponta para a necessidade de mudanças de determinadas situações, que o status quo deve ser quebrado, deve sair sempre do marasmo causado pelo estado de deleite em que se encontrava o homem. Esta a felicidade criticada por Schopenhauer.
Ainda na doutrina cristã, Schopenhauer fala da culpa (advinda do pecado original?), à qual estão fadados os homens. Voltemos ao mundo perfeito gerado por deus, o Éden. O tédio gerado pela felicidade edenica desmotivada levou Adão e Eva a quebrarem uma situação pré-estabelecida. Sua atitude fez com que seu criador Expulsasse-os do paraíso. A partir de então, eles e todas as gerações posteriores estarão fadados a trabalhar para conseguir seu alimento, a sofrer, afetados por doenças, a passar por conflitos, guerras etc. de forma a reparar este erro primeiro, todas as gerações serão marcadas com essa culpa, todas deverão sofrer e sentir dor. Nota-se, portanto, uma alternância entre “movimento e parada”, ou seja, para que as gerações posteriores tenham paz, tenham calmaria, terão que passar por guerras, conflitos e sofrimentos; mas, até quando dura o período de paz? Até que este se faça enfadonho, sendo necessário, para a mudança, outro conflito, é a crise, que se encontra entre a saída de um estado e o começo de outro. Sempre a mesma seqüência, movimento – parada, guerra – paz, dor – prazer etc.
Mas o sentimento de culpa não se encontra somente na doutrina cristã, está presente em diversas outras culturas. Entretanto, o movimento que faz a maioria destas se faz no sentido de amenizar esta culpa. Os cristãos tentam amenizá-la com caridades, com o amor ao próximo; muitas culturas orientais buscam-na através de uma reaproximação telúrica, ou seja, através da harmonia homem-natureza etc. Mas o homem trágico, este abraça sua culpa, vive-a até as ultimas conseqüências; tem a coragem de vivê-la. Ele está em função disso, de forma que, parece estar indiferente ao mundo que o rodeia.
* Texto desenvolvido a partir da idéia: “O homem trágico tem a coragem da culpa já existente na essência humana”, termo utilizado por Emil Staiger
[1] Aluno do 3º ano do curso de Letras, Bacharelando em Literatura.
[2] SCHOPENHAUER, Arthur. Schopenhauer – Vida e Obra. In Coleção Os Pensadores. São Paulo, 2000.
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