quarta-feira, 19 de março de 2008

OS AMIGOS DA VERDADE

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"Serão amigos da 'verdade' esses filósofos do amanhã? Possivelmente, pois todos os filósofos foram amigos de suas verdades. Mas, não serão certamente, pensadores dogmaticos. Deve-se renunciar ao mau gosto de querer estar de acordo com um grande número de pessoas. O que é bom para mim, não é bom para o paladar do vizinho. E como poderia haver um 'bem comum'? Esta frase encerra uma contradição. O que pode ser desfrutado em comum é sempre coisa de baixa definição, de poico valor. Enfim, as grandes coisas estão reservadas para os g randes espíritos, os abismos para os espíritos profundos; as delicadezas e calafrios reservados aos refinados, numa palavra: as raridades para os raros.







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Depois de tudo que disse terei necessidade de dizer que também serão espíritos livres os filósofos do porvir, que serão algo mais elevado, radicalmente diferente, que não quer ser nem desconhecido nem confundido? Ao dizer isso me snto obrigado com eles e conosco, espíritos livres, que somos seusmensageiros e precursores, a afastar deles e de nós um velho e estúpido preconceito, um mal-entendido absurdo que nublou durante muito tempo a noção de espírito livre. Para falar sem meias palavras, são niveladores desses que se chamam erroneamente 'livre-pnesadores', escravos a serviço do gosto democrático, homens privos de solidão, de uma solidão que lhes seja própria, são, enfim, ridiculamente superficiais, sobretudo por sua tendência fundamental de ver nas formas da antigüidade a causa de toda a miséria humana. Sua aspiraçã é a felicidade do rebanho, as verdes pastagens, a segurança e o bem-estar. As duas cantilenas que repetem até o cansaço são 'a igualdade dos direitos' e a 'compaixão relativamente a todo ser que sofre'; consideram que o sofrimento é algo que deve ser exterminado. Nós vemos as coisas a partir de um ponto de vista oposto a este, e nosso espírito está aberto diante deste problema: em que condições e em que forma a planta humana desenvolveu-se3 mais vigorosamente até agora? Acreditamos que isto se produziu sempre em condições completamente opostas, que foi necessário que o perigo que acicata a vida humana crescesse até a enormidade. Acreditamos que a insensibilidade, o perigo, a escravidão, que se encontra sempre na rua e nos corações, a clandestinidade, a austeridade, toda classe de bruxarias, tudo o que é mau, terrível, tirânico, tudo que existe no homem de animal predador ou de reptil, é da mesma forma que seu oposto, útil para elevar o nível da espécie humana. E com isto não dizemos o bastante; o que devemos dizer e calar aqui nos coloca contra a teologia moderna e contra todos os desejos do rebanho. E que há de surpreendente se nós, 'espíritos livres', somos infimamente comunicativos? Se nós, em nenhuma forma e nem sob nenhum aspecto, não nos preocupamos em descobrir de que o espirito deve livrar-se e ao que deve lançar-se depois? E quanto à formula que implica grande risco: 'além do bem e do mal', tem utilidade para nós pelo menos para indicar que somos algo distinto dos livre-pensadores, ainda que se os designe em francês, italiano ou alemão, segundo o gosto desses extravagantes defensores das 'idéias modernas' tendo estado em muitas paragens do espírito, como em casa ou em hospedagem, fugido sempre dos redutos obscuros e agradáveis em que preferências e preconceitos, juventude, origem, acaso de homens e livros ou mesmo fadigas de peregrinações pareciam reter-nos, cheios de malícia face às atrações da dependência, nós, nós temos afastado o servilismo implicado pelas honras, dinheiro, cargos públicos ou aberração dos sentidos, com certo agradecimento à desgraça e às enfermidades; agradecidos a Deus, ao diabo, à ovelha e ao inseto que se reúnem em nós, com uma curiosidade que raia à enfermidade. Investigamos até à crueldade, dispostos a encher nossas mãos com aquilo que repugna aos estômagos capazes de digerir as coisas mais indigestas, capazes de todos os misteres que requeiram astúcia, penetração e sentidos aguçados, dispostos a todos os perigos - graças a um excesso de 'livre arbítrio' - ricos em primeiros planos e em segundas intenções que ninguem perscruta até o fundo, ocultos por sob mantos de luz, conquistadores assemelhados, contudo, a herdeiros e dissipadores, coordenadores e colecionadores incessantes, avaros de nossas riquezas e gavetas trasnbordantes, destros para saber distinguir entre o que aprender e o que esquecer, inventores de esquemas, por vezes orgulhosos deles, or vezes pedantes, por vezes formigas laboriosas dia e noite e, quando necessário, espantalhos (e é preciso sê-lo, pelo menos na medida em que a solidão é nossa amiga amigos inatos, jurados e zelozos de nossa própria e profunda solidão, da meia-noite e do meio-dia). Ante vossos olhos a espécie de homens que somos, espíritos livres... vós, a quem vejo chegar, vós, novos filósofos... tereis, talvez, um pouco de nós."

Fonte:
NIETZSCHE, Friedrich. Além do bem e do mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro.
Quadro: Reflection (self portrait) Lucien Freud, 1985.

1 comentários:

Ágata disse...

... empolgou...