Para um autor como Guimarães Rosa, no contexto dos 50 anos de Grande Sertão: Veredas, é clichê refletir o autor e sua obra. Essa relfexão não deve se dar apenas enquanto espelho de seu povo, como o diria Darcy Ribeiro sobre o papel dos artistas latino-americanos. Deve-se compreender Rosa à luz da realidade do século 21. A imagem projetada de seu sertão, muito mais do que situado entre o eterno jogo "realidade-ficção", sua proposta de "ler o mundo" e suas técnicas narrativas, pode ser visto como um convite aos escritores de hoje.
Guimarães Rosa propôs pensar não somente a periferia, mas o "não-centro". O autor convida, hoje, a pensar a periferia que se situa longe ou em contraparte dos centros. Pensar o "hoje", significa pensar um contexto de vários centros. As periferias não tocam os centros. Os "outros" se repelem.
Há quem diga que lugar-sertão se divulga, nos crespos do homem, lugar-sertão é dentro da gente e, ainda, que o sertão está em toda parte, lugar que se divulga, nos campos gerais, "a fora, a dentro". O sertão, como bem o disera Guimarães Rosa, é isso, um lugar me que "O senhor tolere, isso é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima, para os de Corinto e de Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade".
O sertão é isso, nas palavras de João Guimarães Rosa, esse lugar do tamanho do mundo, esse lugar dentro da gente, em toda parte; esse lugar que Rosa, como tantos outros, salvou do ocaso movido pelas capitais culturais daqui e d'alhures. Um lugar-centro. 2006, dentre muitos outros cinqüentenários, como o ponta-pé inicial para a construção da nova Capital Federal, Brasília, comemora-se também esses lançamentos de Grande Sertão: Veredas, e Corpo de Baile, de Rosa.
Um Grande Setão, de jagunços, de guerras, guerrilhas, de pazes negociadas, de pazes articuladas. Alguma semelhança com o hoje de várias periferias? Um Grande Sertão que se divulga o amor, a morte, o temor, o desejo do amor... o medo do amor; o Diabo dançando no meio da rua, dançando no meio do redemoinho, e Deus se economizando no milhagre. No sertão vem tudo e todos, vem homem humano, vem mar, vem mundo mundão, vem lei, vem reza, vem guerra, vem paz. No sertão vem o nada, vem o tudo, homem humano mesmo, jagunço, sertanejo, catrumano, homem-humano. O sertão dentro dele. Nele se vê de tudo, Rosa: vereda de espinho, Riobaldo no encrave de seu espinho Diadorim, espinho de amor, de querer e de dor. Quantos "Diadorins" e "Riobaldos" existem nos "Joãos", "Marias" dos dias da cidade.
O sertão é tudo. O sertão é a periferia do Brasil, dentre muitas outras periferias, quais o cerrado, o agreste, os povos do norte. Rosa fora enfático ao colocar as seguintes palavras na voz de Riobaldo: "Ah, tempo de jagunço tinha mesmo de acabar, cidade acaba com o sertão". Nota-se, em trechos do Grande Sertão, e de outras obras de Rosa, a adequação do jagunço ao meio cotidiano. Jagunço que vai à cidade sem usar gibão, sem usar sua veste de couro, por vergonha, por receio de parecer beócio, catrumano, jagunço. Além, é claro, das constantes tentativas de se politizar, ao modo da civilização, o sertão, de se levar a lei da cidade para o jagunço, de se desarraigar a lei jagunça, como acontecera também ao sertanejo de Euclides.
Cabe uma comparação da exclusão do sertão com a mesma que ocorre dentro dos grandes centros urbanos. Aual a forma com que os centros vão se aglomerando em pequenos grupos elitizados, e dentro destes centros, empurrando, cuspindo as grandes minorias para as margens, as beiradas das cidades. Os grandes centros também empurram o sertão, o sertanejo, o cerrado, e todas as oturas minorias dese mundo. As periferias aprenderam a olhar para o centro. Os centros débeis, através de sua mídia (metáfora de seus olhos), não conseguem olhar para a periferia e seus acontecimentos sem espetacularizá-los. Como as periferias dos grandes centros, que desenvolvem seus próprios governos, suas próprias leis, a periferia do país também desenvolve as suas realidades.
O sertão tem a sua própria lei, além da lei de Deus. Lembre-se como exemplo, a cena em que se julga o jagunço Zé Bebelo que, como paga, é deportado para o Estado de Goiás, e não morto. Traição, no sertão, se paga com morte, o ferro com o ferro se fere e ao fogo se queima. O sertão tem sua própria lei, é o lugar "onde manda quem é forte, com as astúcias. E Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal..."
O sertão é isso, a periferia do mundo grande. A cidade grande tem mesmo que acabar cm o mundo arcaico, e a cultura do sertão, se não vai pra cidade, recua pra periferia, recuando, se acuando. Tempo de sertão tinha de ac a ba r. Tinha? Tinha não, porque o Diabo do sertão, enquanto tiver sertanejo lá, com o pé no chão, seguindo a sua lei, peleja, vai pelejar, na sua peleja com o Dono do céu. Quem é o dono do céu? O que monopoliza e possui a hegemonia sobre o discurso da sociedade, ou o que elabora atualmente e em algumas periferias o discurso que possui potencial de centralização.
As veredas são periferias e, ao mesmo tempo, anti-centros do sertão. Os vetores estão opostos. Essa é a lição de Rosa em seu Grande Sertão aniversariante. Dizia-se que os "outros" se repelem. Porém, a alteridade mais repelida é a que mais tenta se aproximar. Seja pela violência, como o disse Glauber Rocha em 1965, seja pela sua paixão por não desejar viver na situação em que se está: na periferia de centros. A periferia olha o centro com outros olhos. Não é como o centro olha a periferia. O véu que encobre a periferia para o centro, e para a classe média que compartilha os meios, também encobre o diverso e seus diversos modos de olhar.
A periferia - descobriu Rosa assim como é pedido que se descubra hoja - não tem lugar: é sertão, é vila, é favela. É sul do sul, e sl do norte. Política das vozes. Até que as vozes se coloquem no lugar. Possivelmente, hoje, Guimarães Rosa diria: "agora, mais do que antes, tudo é mais sertão".
Josué Borges e Pablo Gobira
Publicado n'O Cometa Itabirano, nº 305, maio de 2006
Guimarães Rosa propôs pensar não somente a periferia, mas o "não-centro". O autor convida, hoje, a pensar a periferia que se situa longe ou em contraparte dos centros. Pensar o "hoje", significa pensar um contexto de vários centros. As periferias não tocam os centros. Os "outros" se repelem.
Há quem diga que lugar-sertão se divulga, nos crespos do homem, lugar-sertão é dentro da gente e, ainda, que o sertão está em toda parte, lugar que se divulga, nos campos gerais, "a fora, a dentro". O sertão, como bem o disera Guimarães Rosa, é isso, um lugar me que "O senhor tolere, isso é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima, para os de Corinto e de Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade".
O sertão é isso, nas palavras de João Guimarães Rosa, esse lugar do tamanho do mundo, esse lugar dentro da gente, em toda parte; esse lugar que Rosa, como tantos outros, salvou do ocaso movido pelas capitais culturais daqui e d'alhures. Um lugar-centro. 2006, dentre muitos outros cinqüentenários, como o ponta-pé inicial para a construção da nova Capital Federal, Brasília, comemora-se também esses lançamentos de Grande Sertão: Veredas, e Corpo de Baile, de Rosa.
Um Grande Setão, de jagunços, de guerras, guerrilhas, de pazes negociadas, de pazes articuladas. Alguma semelhança com o hoje de várias periferias? Um Grande Sertão que se divulga o amor, a morte, o temor, o desejo do amor... o medo do amor; o Diabo dançando no meio da rua, dançando no meio do redemoinho, e Deus se economizando no milhagre. No sertão vem tudo e todos, vem homem humano, vem mar, vem mundo mundão, vem lei, vem reza, vem guerra, vem paz. No sertão vem o nada, vem o tudo, homem humano mesmo, jagunço, sertanejo, catrumano, homem-humano. O sertão dentro dele. Nele se vê de tudo, Rosa: vereda de espinho, Riobaldo no encrave de seu espinho Diadorim, espinho de amor, de querer e de dor. Quantos "Diadorins" e "Riobaldos" existem nos "Joãos", "Marias" dos dias da cidade.
O sertão é tudo. O sertão é a periferia do Brasil, dentre muitas outras periferias, quais o cerrado, o agreste, os povos do norte. Rosa fora enfático ao colocar as seguintes palavras na voz de Riobaldo: "Ah, tempo de jagunço tinha mesmo de acabar, cidade acaba com o sertão". Nota-se, em trechos do Grande Sertão, e de outras obras de Rosa, a adequação do jagunço ao meio cotidiano. Jagunço que vai à cidade sem usar gibão, sem usar sua veste de couro, por vergonha, por receio de parecer beócio, catrumano, jagunço. Além, é claro, das constantes tentativas de se politizar, ao modo da civilização, o sertão, de se levar a lei da cidade para o jagunço, de se desarraigar a lei jagunça, como acontecera também ao sertanejo de Euclides.
Cabe uma comparação da exclusão do sertão com a mesma que ocorre dentro dos grandes centros urbanos. Aual a forma com que os centros vão se aglomerando em pequenos grupos elitizados, e dentro destes centros, empurrando, cuspindo as grandes minorias para as margens, as beiradas das cidades. Os grandes centros também empurram o sertão, o sertanejo, o cerrado, e todas as oturas minorias dese mundo. As periferias aprenderam a olhar para o centro. Os centros débeis, através de sua mídia (metáfora de seus olhos), não conseguem olhar para a periferia e seus acontecimentos sem espetacularizá-los. Como as periferias dos grandes centros, que desenvolvem seus próprios governos, suas próprias leis, a periferia do país também desenvolve as suas realidades.
O sertão tem a sua própria lei, além da lei de Deus. Lembre-se como exemplo, a cena em que se julga o jagunço Zé Bebelo que, como paga, é deportado para o Estado de Goiás, e não morto. Traição, no sertão, se paga com morte, o ferro com o ferro se fere e ao fogo se queima. O sertão tem sua própria lei, é o lugar "onde manda quem é forte, com as astúcias. E Deus mesmo, quando vier, que venha armado! E bala é um pedacinhozinho de metal..."
O sertão é isso, a periferia do mundo grande. A cidade grande tem mesmo que acabar cm o mundo arcaico, e a cultura do sertão, se não vai pra cidade, recua pra periferia, recuando, se acuando. Tempo de sertão tinha de ac a ba r. Tinha? Tinha não, porque o Diabo do sertão, enquanto tiver sertanejo lá, com o pé no chão, seguindo a sua lei, peleja, vai pelejar, na sua peleja com o Dono do céu. Quem é o dono do céu? O que monopoliza e possui a hegemonia sobre o discurso da sociedade, ou o que elabora atualmente e em algumas periferias o discurso que possui potencial de centralização.
As veredas são periferias e, ao mesmo tempo, anti-centros do sertão. Os vetores estão opostos. Essa é a lição de Rosa em seu Grande Sertão aniversariante. Dizia-se que os "outros" se repelem. Porém, a alteridade mais repelida é a que mais tenta se aproximar. Seja pela violência, como o disse Glauber Rocha em 1965, seja pela sua paixão por não desejar viver na situação em que se está: na periferia de centros. A periferia olha o centro com outros olhos. Não é como o centro olha a periferia. O véu que encobre a periferia para o centro, e para a classe média que compartilha os meios, também encobre o diverso e seus diversos modos de olhar.
A periferia - descobriu Rosa assim como é pedido que se descubra hoja - não tem lugar: é sertão, é vila, é favela. É sul do sul, e sl do norte. Política das vozes. Até que as vozes se coloquem no lugar. Possivelmente, hoje, Guimarães Rosa diria: "agora, mais do que antes, tudo é mais sertão".
Josué Borges e Pablo Gobira
Publicado n'O Cometa Itabirano, nº 305, maio de 2006
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