domingo, 9 de dezembro de 2007

Jornal Inverta, Rio de Janeiro, 25/01/2007

Entrevista com o poeta Josué Borges de Araújo Godinho, 25 anos, nascido em Presidente Olegário, interior de Minas, onde viveu até os 19 anos, quando foi para Goiânia. Autor do livro de poesias Zigoto, é formado em Letras pela UFG e mestrando em Estudos Literários pela UFMG, onde defenderá em fevereiro tese sobre a mimese em Grande Sertão: Veredas. Além de Zigoto, escreveu o livro de poesias Fragmentos de um olhar quase absolutamente são, inédito ainda.

Inverta - Por que o nome Zigoto e qual a sua relação com esse mundo das letras?
Josué - Na ciência zigoto é algo ainda indefinido, e esse livro não tem uma forma definida, é bastante verborrágico, um novelo de idéias que eu não se se conseguem se definir, mas está ali, aquele amontoado de células um tanto sem forma.
Desde criança, gosto de livros, mesmo antes de aprender a ler, dizia minha mãe, que eu sempre andava às voltas com um deles. Comecei a escrever alguns versos na juventude, coisas um tanto pueris que hoje eu não faço idéia de onde estão, talvez guardadas, em algum lugar da memória. O Zigoto é meu primeiro livro de poesia, comecei a escrever em Goiânia, por volta de 2000, por volta de 2003 eu o fechei, entretanto, desde então ficou guardado em uma gaveta. E nesse tempo venho escrevendo, publicando poemas e contos, e também artigos em jornais impressos e eletrônicos.
I - Mas essas idéias caminham para uma contestação social, como em "Crepúsculo"?
J - É, tenho certa preferência por ele, tenho mais dois que estão em francês, e que eu traduzo no final do livro, mas "Crepúsculo" é um de meus preferidos. Mas essa questão trabalho mais no meu livro Fragmentos, que ainda não está nem no prelo. Sobre Zigoto, em 2005, a tia Maria, que é professora de Literatura e Língua Portuguesa, disse-me que eu deveria publicá-lo. Diria que Zigoto seria uma espécie de Caderno de poesias, que não tem uma mesma ordem de pensamento, ainda não condensa as idéias definidas; não que em Fragmentos exista uma ordem linear de idéias, mas já tem uma certa definição. Nele, alguns poemas trabalham questões sobre fundamentalismo religioso, esse mal que se faz em nome de Deus; em outras o existencialismo, o homem que nasce, vive e morre mais ou menos sem ter um rumo na vida, ou que passa pela vida sem se ver passando, sem se sentir vivendo.
I - Mas você também fala de sentimentos, como o amor, alguns traduzem isso...
J - É verdade, há alguns poemas que falam desse sentimento sim, como o "Circulador", que faz um jogo entre amor, prazer e dor. Penso que todo poeta, ou quem quer que tenha se arriscado em versos, já falou um dia desse sentiento, do amor.
I - A partir de quando você desenvolveu sua tese sobre a mimese em Grande Sertão: Veredas?
J - Comecei a trabalhá-la de uma forma meio inesperada, no curso de graduação. Estava quase terminando minha monografia sobre Augusto dos Anjos, esse poeta fantástico, quando abandonei essa monografia e resolvi fazer a primeira abordagem sobre Grande Sertão: Veredas, em que trabalhava sob uma perspectiva da mitologia grega, sobretudo a partir de O Banquete, de Platão. Mas no mestrado resolvi voltar à questão da mimese, que sempre me fascinou, desde o princípio da graduação, e tem também o fato de ela ser uma questão pouco trabalhada nos meios acadêmicos, apesar de ser um dos pontos mais importantes e polêmicos na teoria da literatura. E o Aristóteles, ao contrário de Platão, veio com um olhar positivo da representação, que naquela época era abordada, sobretudo, na tragédia; ele valoriza a mimese e a verossimilhança pelos efeitos que a catarse provoca no espectador, então, isso tinha para Aristóteles um papel social muito importante. Mas não creio que o Platão pensasse o mesmo.
I - Mas o Aristóteles faz um corte metafísico, distanciando da realidade, e tem a questão da perfeição, do belo.
J - A questão da mimese na poética é basicamente essa, mas não é só isso. Ela não tem que corresponder à realidade, e veja bem, isso não significa que ela se distancie dessa mesma realidade, pelo contrário, a arte tem que ser verossímil. Segunto Aristóteles, o poeta deve representar as coisas não como elas são, mas como elas deveriam e poderiam ser.
O belo, nesse caso, é o equilíbrio, se voltarmos lá na Poética podemos ver que o Aristóteles diz, em determinado ponto, que aquilo que se representa deve ser algo que não seja tão grande, de modo que os olhos não possam ver tudo, nem tão pequeno, que os mesmos olhos não possam ver nada. Mas a minha questão com a mimese é também o fato da representação, mas o ponto fundamental do meu trabalho é a catarse que Riobaldo provoca em si mesmo, uma catarse que leva à identificação do sujeito, no caso do Riobaldo, é uma auto-identificação.
I - O Guimarães Rosa mostra o universo a partir daquela região para o mundo, até o metafísico.
J - É verdade, quanto mais vcoê trabalha dentro de sua própria casa, mais consegue mostrar o que é universal. E é exatamente dali, do norte de Minas, passando pelo nordeste de Goiás e o sul da Bahia que o João Rosa mostra o universo humano. Todas as obras dele falam dessa região. Se você ler poderá ver que o seu regional é extremamente universal, você encontra ali desde questões metafísicas até questões políticas atuais. Em Grande Sertão há questões metafísicas de tempos arcaicos, como a briga entre Deus e o Diabo, uma das questões que preocupam o Riobaldo, pois em praticamente todo o texto ele se pergunta se o Diabo existe ou não existe, e ele fica ali, sem saber se fez ou não o pacto com ele. Outro ponto importante, por exemplo, é a organização política dos jagunços, suas formas de punição e seus julgamentos. Essa mesma briga que existe entre o centro e a periferia é refletida em Grande Sertão, se observar bem pode ver que o crescimento das cidades vai, aos poucos, oprimindo o sertão. Tem até uma frase no Grande Sertão, que não sei se exatamente esta, que diz assim: "Sertão tinha de acabar, cidade acaba com o sertão".
I - Com relação à linguagem que Guimarães Rosa utiliza, qual a relação desse trabalho com a poesia?
J - O Guimarães Rosa aconteceu para mim quando o Zigoto já estava pronto, mas uma coisa aprendi com ele e tento usar na poesia: é que ele dizia que para escrever bem temos que envergar o idioma, de forma que o idioma parecesse começar novamente, ou dar um recomeço à língua, e isso é fantático, porque ao fazer isso, o João Rosa cria um mundo novo. Tento fazer isso com a poesia, não sei se consigo. Além dele, tem outro escritor brasileiro que assim o faz, é o Manuel de Barros que, lá no seu belo Mato Grosso do Sul, faz um trabalho maravilhoso com a linguagem poética, e não é só isso, traz aquela região do país para a gente conhecer, e é bom que o artista faça isso, esse é um dos seus papéis, o de fazer conhecer a realidade em que se vive.
I - São 50 anos de Grande Sertão: Veredas, como você definiria o universo de Guimarães Rosa?
J - O universo do Rosa é uma coisa fantástica. Ele é considerado um dos maiores escritores brasileiros, e na verdade é. O que ele faz na sua obra, além de suas qualidades literárias, é mostrar para o mundo, para o Brasil, o universo do sertão mineiro. Mas não é só o trabalho dele que faz essa valorização. Temos, por exemplo, o Mário Palmério e o Bernardo Élis, lá em Goiás, ou o Neruda, com o Chile, enfim, há uma infinidade de artistats comprometidos com o seu povo.
I - Você acha que o poeta deve falar da realidade social?
J - É impossível escrever sem traduzir ou deixar transparecer essa realidade social, mesmo que ele não queira, o poeta está inserido nesse meio, então, necessariamente, tem que falar de sua realidade, de uma forma ou de outra a sua obra vai falar, ainda que seja de forma bastante implícita. Penso que o poeta, o artista deve assumir um compromisso com a realidade social, porque a arte, acima de tudo, deve melhorar o mundo em que se vive, despertar o interlocutor para isso. Se um artista denuncia determinada realidade social, como o Machado de Assis fez em sua obra, está cumprindo com o seu papel de artista e de escritor.
I - A miséria te agride?
J - Demais. Um homem deitado na calçada, uma criança pedindo esmola, pessoas passando fome e implorando, gritando por ajuda, pessoas comendo lixo, restos dessa classe que vive na ostentação e na usura, isso, pra mim, é um atentado violentíssimo ao pudor. Há muita miséria nesse mundo nosso, é preciso que se conscientize a todos de que isso tem que mudar, porque a miséria agride, é bruta, cruel e dói, esse mundo desse jeito, é uma coisa estúpida, desesperadora.
I - E você pretende denunciar isso em sua poesia de forma aberta?
J - A poesia é um lugar onde se pode dar um tapa na cara do sujeito, seja ele quem for, não é para ficar fazendo versinho, é também para isso, mas não é só isso, a poesia é algo mais, não é lugar bem comportado, é um lugar em que se pode falar, abertamente, àqueles que o lêem. A literatura não tem sentido, se não vem para trasformar o mundo, aliás, é esse o papel do homem, afinal, um ser que vem ao mundo e não o torna melhor, que tipo de ser humano é esse?
I - Como você vê a poesia hoje?
J - O que me atrai na poesia hoje é que ela não se completa, o mundo se fragmentou, e isso é refletido nas artes, ou seja, por exemplo, a poesia de hoje, e o romance também, é como as imagens de um caleidoscópio, que vão se formando aleatoeiamente, ou de uma forma concatenada, mas com uma certa desordem, uma desordem aparente e evidente. A literatura hoje pode ser comparada a um mosaico, quando começa a se construir, quebra novamente. Começa a construir um diálogo,mas não o completa, a poesia mostra que se quer chegar a algum lugar, mas não chega a esse fim, ela está em constante tentativa de se completar, mas é um diálogo que não se completa, que se fragmenta cada vez mais, e eu penso que essa própria fragmentação seja a essência de tudo o que se produz.
I - Você considera que esse seja o papel histórico da poesia?
J - A poesia e toda a arte provocam uma reflexão. É o que a tragédia foi para os gregos. E esse papel é revolucionário, ou seja, se a poesia atinge o seu leitor e o leva a refletir sobre seu mundo, o leva a transformar o seu mundo, e que essa transformação seja para melhor, então, a poesia tem um papel revolucionário. Penso que a poesia de verdade sempre é revolucionária, sempre é transformadora. E quando falo de poesia, eu falo na arta da literatura, é a poesia, o romance, é toda a literatura.