sábado, 24 de novembro de 2007

Só pra lembrar o que acontece.

Pequeno perfil de um brasileiro urgente gente

Quanto a mim, penso que sou apenas algumas lembranças do futuro. Eu não sou uma vitrine lida. Eu não jogo nada no chão. Eu vivo intensamente o que a vida me permite viver. Tenho uma gatinha parda que se chama Diadorim. Escrevo poesias, contos e apontamentos sobre qualquer coisa. Estou fazendo esculturas em madeira. Gosto de cerveja, vinho, cachaça e cachimbo. Durmo pelado e acordo cedo. Não gosto de banho mas tomo todo dia. Gosto de Guimarães Rosa, Augusto dos Anjos e de andar no mato. Moro no interior do país. Faz calor onde moro e vai fazer mais daqui um tempo. Gosto de rock progressivo e de crianças sorrindo. Blues e tango argentino me fazem bem como o sorriso das crianças. Cheiro de chuva molhando a terra me faz sonhar. A inocência das crianças me lembra minha bisavó. Nos meus jardins crescem maçãs selvagens. Tenho poucos amigos, mas eles são muitos. O sorriso da Vivinha, minha mulher, se espalha como borboletas dentro de mim. Por isso, e por muitas outras coisas belas, eu a amo. Eu gosto das coisas urgentes. De mim e de ti. Do princípio ao fim. O futuro as vezes me assusta, mas só por alguns instantes. Eu sei que há pessoas que conheci e que foram importantes nessa conhecênça, e sei que muitas delas jamais tornarei a ver. Cá no interior a vida passa mais devagar, mas só por alguns instantes. Concordo com o Carlos, quando ele disse que as casas nos olham. A vida por cá é besta, mas não é besta como vocês capitalinos pensam. A vida por cá é inocente. Por isso sofro. Existem pessoas perto de mim que são más. Eu também já tive momentos de malvadeza. Mas aprendemos que isso não é bom. As vezes me pego procurando felicidade. E sempre percebo que é besteira procurar por ela. Porque a verdade está na travessia. Viver é o melhor remédio pra ser feliz. E descobri também que felicidade e tristeza são separadas por uma linha muito tênue. E que, na maioria das vezes, são as palavras que têm controle sobre essa linha. Por isso devemos ter cuidado com todas as palavras que usamos, pois as palavras foram feitas pra serem ditas, e elas são de todas as naturezas. Viajar é preciso, mas não por necessidade, pelo prazer da viagem e dos conhecimentos que ela proporciona ao viajante. Amar também é preciso, mas sem moderação. Ter amigos é importante, saber cuidar deles é uma arte, difícil de aprender. É importante ter vários amores, de diferentes modos, e saber amar fiel e lealmente a cada um deles. O céu não é o limite. O limite é o fim, e o fim está muito longe para se pensar nele. Por isso, o limite é aquilo em que você acredita. No honrado e no final, eu sei que minha vida, um dia, não passará de um rabisco sem fim. Mas é importante saber ler e entender esse rabisco. Eu sei, de algumas coisas. Poucoas coisas. Mas sei que a travessia me faz presente, e a presença em que me faço é o rabisco que venho traçando na existência, de mim e de vocês, do princípio ao fim. De resto, acho que não sei muita coisa, só algumas, poucas, muito poucas, mas o suficiente para querer saber mais...

sábado, 3 de novembro de 2007



ARANHAS*

Aranhas

Aranhas tecem

Aranhas tecem sua

Aranhas tecem sua teia

Aranhas tecem sua teia negra

Aranhas tecem sua teia negra e suja

Aranhas

Aranhas negras

Aranhas negras tecem

Aranhas negras tecem devagar

Aranhas negras tecem devagar sua

Aranhas negras tecem devagar sua pegajosa

Aranhas negras tecem devagar sua pegajosa suja

Aranhas negras tecem devagar sua pegajosa suja negra

Aranhas negras tecem devagar sua pegajosa suja negra feia

Aranhas negras tecem devagar sua pegajosa suja negra feia teia

Aranhas

Aranhas prendem

Aranhas prendem brutal-mente

Aranhas prendem brutal-mente em

Aranhas prendem brutal-mente em sua

Aranhas prendem brutal-mente em sua teia

Aranhas prendem brutal-mente em sua teia a

Aranhas prendem brutal-mente em sua teia a vida

Aranhas prendem brutal-mente sua mente e sua vida

Prendem brutal-mente sua liberdade em suas redes de cangaço...



*Poema retirado do meu livro Zigoto, publicado em julho de 2006.

**A foto é minha.