quarta-feira, 24 de outubro de 2007


Foi uma amiga quem me mandou esse poema, no entanto, não sei se é de autoria dela.

O menino das palavras caladas

O dia amanhecendo é o momento mais mágico do lugar, apesar de todos os outros. Inhantes mesmo do sol sair, já se começa tudo. Os galos têm o dom dos profetas. São mágicos sem cartola e sem truques. No meio da madrugada o bicho sente o cheiro da luz do sol, e começa, de galo em galo, de galho em galho, a cantoria desses animas que pintam com luzes de som, de cor e de sol as manhãs que a gente quer. E os Passarim? Esses são filhos da luz do sol do dia de todos os tempos da vida dos seres da terra desse mundo de meu Deus. Passarim é bicho príncipe. Passarim canta espeichaaaaaaaado. Bonito. Não se economiza. De Passarim que canta encantado, principal é sabiá. Sabiá no pé de laranjeira cantando, parece Deus se economizado. Operando milagre.

Sabiá, curió, canarim-do-campo, patativa, assum-preto, azulão,coleirinha, o papa-capim, o tizil, seriema lá na serra, saracura-três-potes cantando lá no meio do brejo, alegre, canta engraçado – “três-potes, três-potes, tres-potes, quebrou um e ficou dois”. Uirapuru. Uirapuru canta também, canta bonito, gostoso, canta toada compriiiiiiiiiida, canta a-sim. O bem-te-vi, bem-te-vi me vê, vê o sol, vê Deus e v ê todo mundo, canta pra tudo, pras pessoas, pros animais, pra todo ser vivo. Canta no alto da mangueira, pra vê os bichinhos todos miúdos avoando lá embaixo, que ele pega pra comer.

Juca Meleta ficava embizorrado se num escutava o canto dos Passarim. Corria pra beira lá do córrego lá da Pirapetinga, aquele que passa no meio do arraial do Brejo Alegre, aquele, que passa lá no quintal da Henriqueta Araújo, e vai lá pras banda da Onça, pros lado lá da Vargem Grande e do Capim-Branco, do lado da esquerda do São Brás, o que cai lá no ribeirão-lá-das-Três-Barras. Ficava de calundun, embizorrado lá no meio do mato, matutando, caçando Passarim, ocasião de poder escutar o canto bonito da avezinha. Se não achava nenhum, nem num dormia naquela noite. Esperava o meio da madrugada pra escutar tudo muito lindo demais, cantando nos cafundó do meio do mato lá da roça.

Pois então é que sentia tudo, o cheiro bem do bão lá do mato, do capim-cidreira gostoso, o ceirinhozinho gostoso das bostas de vaca lá do curral, e o leite quentinho saindo ali, bem do ubre delas, na horinha mesmo de tomar. Sonhação!? Canção de lavadeira na beira do rio, cantando pra secar roupa, quarando lá na lájea bem bonita. Via tudo muito branquinhozinho no meio da madrugada escura.

O Juca Meleta nasceu menino diferente demais dos outros. Nesceu dma sonhação duma noite de lua cheia quase se encontrando mais o sol, numa chuvinha mansa que fazia carinho nas plan tinhas todas de lá, nos pé lá do arco-da-véia, onte tem um pote de ouro, com muito ouro de verdade e uma velha que toma conta lá do pé do arco-da-véia. Mas nasceu da encantação, sonhice engraçada, com a benção dos pais e da veia e de todos os animaizinhos bem miúdos ali daquele chão. Também dos Passarim, das borboletas fazendo risco no céu sem chão, e de todas as plantas muito bonitas demais daquele lugar. Batizado com cada cor que nasce em cada pé do arco-da-véia. Por isso o menino podia passar por debaixo dele que num acontecia nada. A pois todo muito sabe que o arco é perigoso, é bonito por demais mas é perigoso. Pois num sabe que se passando por debaixo dele o mundo vira tudo dos avessos? Ora se não, nem de deus não se sabe se é. Mas é. É não?! É sim uai! Pois se fala que se qualquer um que passa lá por debaixo dele, se sendo homem vira na horinha mesmo mulher, e se sendo a mulher, Nossa Senhora da Aparecida, Senhor Jesus Cristinho e Divino do Espírito Santo, o negócio parece até que malvadeza do demo, pois que na hora mesma é que vira homem a donzelinha que por lá passar. Ninguém nunca num viu não, mas é. E do demo num é não, é só Deus mesmo, operando milagre em toda criação desse mundo nosso.

Então Deus pertenceu o menino pro dom das coisas todas bonitas demais desse mundo. Falar, num falava muito não, mas atuava com admiração e amor bonito demais por todas aquelas coisas nossas bem pequenas. O Juca Meleta era menino príncipe, que nem o menino que nasceu lá do outro lado, pra salvar os homens todos, ele nasceu pra salvar o amor das coisas todas bonitas da terra nossa, do mundo de Nosso Senhor. E salvou? Salvou sim. Até hoje salva, pois num é ele quem olha tudo isso pra gente viver ainda?! É sim ora. Ele ta aí. Ele passa lá no meio do arco-da-véia, e vai lá, conversar com ela, madrinha dele, pra poder saber das coisas boas da gente. Conversa demorado, se rindo da companhia gostosa da madrinha. E com ele não acontece nada não, nasceu lá, bem no pé daquele arco, lá foi batizado, com a benção de Deus? Também. Com as bênçãos de toda criatura muito linda da natureza.

O menino era um menino-Deus, guardador da vida e da alma nossas. Tinha o dom de nascer lá com o sol atrás da serra, de cair água na cachoeira, de ventar no vento gostoso e cheirar no cheiro das plantas todas que a gente tem. De cantar no canto dos Passarim, assim, como a gente não escuta mas sente, cantando como ave mestre, que canta hino de louvor no coral da igreja lá do mato. Hino de louvor a vida da gente.

E Juca Meleta ainda vive? Vive sim. Vive dentro da vida da gente, vive bonito vivendo a vida da gente, na gente e com a gente. Juca Meleta é sonhice gostosa que a gente tem nas noites mansas, ns noites bravas. Sonhice de encantação, de menino brincando no meio do mato, gostando de brincar nas beiras dos córregos, brincar de ser menino, que não brinca de nada, mas brinca de viver. Sonhice sim, das mais gostosas que tem. Juca Meleta é meu pastor. Deus pertenceu Juca Meleta pra ser príncipe, pra ser guardador da alegria toda que a gente tem. Juca Meleta é guardador da gente.

Josué Borges de Araújo Godinho

*Conto publicado na Revista Eletrônica Café com Bytes, na edição de setembro de 2004 (www.cafecombytes.com)

**Conto publicado também na minha página do Jornal de Poesias (www.jornaldepoesia.jor.br)

Algumas variações sobre o mesmo tema

Isso vem do húngaro, e me foi mostrado pelo Guimarães Rosa no prefácio à Antologia do conto húngaro, traduzido e compilado por Paulo Rónai. Como achei interessante, vou colocar aqui:

ház - casa
házban - na casa
házba - à casa (direção)
házra - sobre a casa (direção)
házzal - com a casa
háznak - à casa (dativo)
háztól - da casa (afastamento, proveniencia)
háznál - perto da casa
házhoz - para perto da casa
házig - até à casa
házé - da casa (genitivo em complemento predicativo)
házért - por causa da casa
házzá - feito casa (redzido a, tornado casa)
házul - como casa (à guisa de)
házként - como uma casa (comparação)
házon - sobre a casa (estático)
házról - da casa (idéia de afastamento do alto para baixo)
házam - minha casa
házad - tua casa
házamban - em minha casa
házaimban - em minhas casas

Algumas coisas que eles disseram

Kenneth Tynan (Diários)

"Depois de ouvir o adágio de um apeça de câmara de Schubert: não existe nada mais lindo do que os momentos felizes de homens infelizes. O que pode servir como definição para a arte".

Rilke (Cartas a um jovem poeta)

"Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas (...) Não há nenhuma medida de tempo nesse caso, um ano de nada vale, e mesmo dez anos não são nada. Ser artista significa: não calcular nem contar; amadurecer como uma árvore que não apressa a sua seiva e permanece confiante durante as tempestades da primavera, sem o temor de que o verão não possa vir depois. Ele vem apesar de tudo. Mas só chega para os pacientes, para os que estão ali como se a eternidade se encontrasse diante deles, com toda a amplidão e a serenidade, sem preocupação alguma. Aprendo isto diariamente, aprendo em meio a dores às quais sou grato: a paciência é tudo!"


quarta-feira, 17 de outubro de 2007

As mulheres, e suas flores.


Chagall, na minha opinião, é um dos mais belos pintores, esse quadro, "A mulher com rosas", é um dos mais bonitos, dos mais densos e suaves, a leveza com que a mulher desnuda se entrega às flores e o olhar compenetrado do passente que aparece quase apagado no quadro, mas que quase rouba a cena, justamente pelo seu olhar. E foi pra esse quadro que eu fiz esse poema:

EU CRESÇO FLORES EM VOCÊ

Você que passa sempre,

Inamovível, intangível,

Como a larga estreiteza

Das cores de todas as flores.

Eu teço flores em você.


Estático me olho a ti sem não nem por quê.

Ah! Sua beleza é tão assim,

Belissimamente insustentável

Como a leveza de toda a existência.

Eu padeço flores em você.


Silencio meus olhos neste padecimento de cada sol,

As rosas que lhe crescem, crescem sua dor,

Seu corpo é dédalo, cor, (dês)pudor.

Seu corpo é sedução estarrecedora.

Eu cresço flores em você.

(Belo Horizonte, 2005)


Esse poema está no meu segundo livro, o Fragmentos de um olhar quase absolutamente são.





sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Então, é isso, sei lá, sabe, só sei que foi assim.


Então, o que acontece é que, quando os amigos nos falam, a gente se cala e ouve, então, nessa acontecência, mais um amigo me faz um grande agrado, que eu achei por bem colocá-lo cá nesse lugar-onde, para que outros amigos possam ler. O fato é que, o Alex, um forte amigo das terras goianas, poeta e cantador, deu de ler meus poemas, do meu segundo livro, que ainda não publiquei, mas aí, nisso, o Alex lançou o breve, brevíssimo comentário, que muito me agradou, então, é isso, o que ele disse: "Não, é porque meus poemas são todos assim, mais simples e os seus nos remetem a várias coisas né. As vezes causam até um desconforto pela busca de explorar ao máximo o sentido das palavras". Pois é o Kabeça, é o seguinte, simples é o cacete cara, você tem poemas muito, mas muito bons, de uma sonoridade, uma musicalidade exuberante, e outra, é uma das únicas pessoas que conheço que conseguem escrever sonetos hoje cara, que isso, é muito bom. Mas valeu pelo comentário. Um forte abraço, e até sempre.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

"A lição do amigo" II


Carta ao amigo Josué sobre uma amizade insólita com o amigo Josué

O Josué, desde que eu o conheci, desde sempre já se apresentou pra mim como poeteiro. Mania de grandeza, pensei eu. Afinal, também eu já tinha me arriscado em algumas rimas, perdidas em cadernos antigos. Nem por isso, saía por aí me considerando colega de profissão de Bandeira, Drummond, Lisboa, etc. Mas o Josué não. Era poeteiro e pronto.
Não posso eu, afirmar ainda, que entre nós rolou amizade à primeira vista. Afinal, eu era um moleque recém-saído das asas da mãe que começava a graduação. O Josué não. Era homem feito que já esboçava uma dissertação com vista em uma tese. Era uma criança perto de um homem. não demorou muito, porém, pra descobrir que a criança da história não era eu. Não que eu já tenha me tornado um homem, mas o Josué? Esse nunca deixou de ser criança... E é ótimo que seja assim. Que os velhos de espírito aprendam com ele. Eu aprendi a não ter pressa de crescer. Pretendo formar sendo o mesmo moleque recém-saído das asas da mãe. Obrigado por isso, Josué.
Nossa amizade, porém, ainda não fluiu depois disso. Havia outro entrave. A arrogância intelectual do Josué era algo que me incomodava muito. Felizmente, descobri a tempo que essa arrogância era resultado de alguém que acredita nas coisas que lê e pensa, sem medo de ser julgado ou execrado por isso. Obrigado por isso também, Josué.
Finalmente, então, tínhamos um esboço de uma amizade. Depois que nos tornamos vizinhos de frente, os traços desse esboço ficaram mais fortes. Afinal, abrir a porta do meu quarto significava sempre dar de cara com aquele sujeito de calças engraçadas, de cabelo atrapalhado e com cara de bobo. Ou eu fazia amizade logo com ele ou ia passar a vida achando que tinha morado junto com um palhaço de circo disfarçado de poeteiro. Sim, porque poeteiro o Josué nunca deixou de ser...
Tive o prazer de ler os originais do seu livro bem antes dessa feliz data que se aproxima, em que ele vai poder gritar mais forte ainda do que já gritava, aos quatro cantos, que, afinal, ele é um poeteiro. Na época que li, não me lembro se eu ainda me achava criança perto de um homem ou já me incomodava com a sua arrogância intelectual. Era um ou outro. E que bom que tenha sido assim. Dessa forma, relê-lo agora, publicado, se revelará um novo prazer. Será um novo Josué que descobrirei através dessas linhas, ainda que algumas provavelmente sejam datadas à épocas que o próprio Josué deixou para trás. Não importa. Será uma viagem deliciosa, tenho certeza. Obrigado de novo, Josué.
E finalmente, por que o Josué é um poeteiro e não um poeta, intitulação tão mais comu? Fácil! Porque só um obsceno por natureza colocaria o nome de Zigoto em um livro de poesias...

O Josué, esse aí já nasceu anjo torto...

Um grande abraço,

Vitor Moreira
06/07/06


Então, de forma que, novamente voltando ao assunto da descoberta da amizade, o Vitor, como o Pablo, são dois parceiramigos que encontrei pelo caminho, penso que mesmo geograficamente muito distantes, continuamos nos ajudanto e parceirando uns com os outros, de forma que amizade, no honrado e no final, termina por ser isso, esse "rabisco sem fim". um forte abraço.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Quem matou a Taís?


Então, meio que no clima das discussões dos últimos dias, eu achei esse texto perdido aqui no meio de minhas coisas perdidas, e achei que ele servia, então, eu não quero saber quem matou essa rampera, mas que alguem matou e a discussão tá "agarrada", como diria minha amiga Vanessa, isso tá sim, então, lá vai. até.





ONDE

?

QUANDO

?

COMO

?

PORQUE

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QUEM

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QUEM

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eu não sabia, eu não sabia, como agora não sei, não sei que eu não sabia que não sabia que sabia o que não sabia. Eu não sabia, tu não sabias, ele não sabia, nós não sabíamos, vós não sabíeis, eles não sabiam. Ninguém sabia que eu não sabia que eu não sabia que não sabia. Eu não sabia. Eu não sei, tu não sabes, ele não sabe, nós não sabemos, vós não sabeis, eles não sabem. Eu não sei que eu não sei que não sei o que não sei. Eu não sei eu não sei eu não sei eu não sei eu não sei eu não sei. Ano que vem eu saberei, ah! Sim, eu saberei sim, eu saberei que eu não sabia onde nem quando nem como nem porque nem quem nem quem. Eu saberei, eu saberei eu saberei eu saborearei, o sabor de saber que eu não sabia, eu não sabia que essa noite está tão linda, tão linda tão linda, tão linda a noite, tão linda, com o céu cheio de estrelas, um cri cri cri cri cri cri insistente de grilos grilando lá fora. E esse céu cheio de estrelas, e essa cidade que dorme, que dorme pensando na vida besta de todos os dias, de todas as idas e vindas e voltas e volteios, de todos os maridos e mulheres que chegam em casa às seis horas da tarde, cansados do cansaço do trabalho, cansados. Pro banho, pra janta, janta, a mulher, cansada, vai pra cozinha antes do banho, a janta, a janta do marido, das crianças carentes de pais, a novela das seis, o Profeta que perdeu seus poderes, o jornal local com suas notícias locais, a novela das sete não fala nada de nada, ainda assim, a família se reúne na frente da tê-vê, depois que a mulher preparou a janta pra família toda, toma banho, jornal nacional com a Fátima e o Bonner, sai sangue no jornal, sai sangue na cadeia nacional, atentado no Iraque, atentado no sub-governo estado-unidense no Iraque, atentado violento ao pudor, atentado nos jornais, “mas ta tudo bem, ta tudo bem, eu rabisco o sol que a chuva apagou”, por que depois da carnificina do jornal, a gente esquece tudo, porque tem o Paraíso Tropical, Copacabana princesinha do mar, Garota de Ipanema, o Leblon, Leblon não, o Leblão, ão, com ão mesmo, porque a língua portuguesa herdada da tradicional pátria lusitana é a única língua que tem o tão aclamado e particular ÃO, que belo ÃO, nos enchemos para dizer esse ÃO, sobretudo nós mineiros, que falamos, com o peito inchado, o nosso gostoso TREM BÃO, mas, tem sangue no jornal e as crianças não podem assistir ao Paraíso Tropical, porque é um programa inadequado para a sua faixa etária, então, elas têm que ter pesadelos a noite toda, porque só amanha elas poderão assistir ao Planeta Xuxa, ao Bob Esponja Calça Quadrada, às Três Espiãs Demais, então, elas assistem, depois assistem novamente os jornais. Começa tudo, tudo outra vez. Meu Deus, faz tanto tempo que eu estou fora de casa, não assisto aos jornais, nem as novelas, pra não sofrer o calvário de cada dia, pra não sentir as dores do mundo, não sentir, não sentir, não sentir, não sentir que eu não sabia, eu não sabia, eu não sabia, eu não sabia que eu não sabia que não sabia. Meu deus, quanta gente não sabe que não sabe, quanta gente indefesa, quanta gente não sabe que não sabe, quanta gente vive do pão e circo, da comida rarefeita, arroz feijão batata e diversão barata. Santo Deus do céu, quanta gente não sabe, que não sabe que não sabe, quanta gente precisa saber que o mundo anda complicado, tão complicado, mas não sabem, não saberão, eles não sabem. Eles precisam saber, precisamos saber, saber que devemos saber, que o mundo é complicado sim, Sebastião, mas o mundo é bão, é muito bão, mas precisamos saber que ele é bão, Sebastião. Agora eu sei, eu sei o que sempre soube, que o mundo é bão, mas ele está revirado do avesso do avesso do avesso, o avesso da dor, é a dor que dói mais, porque muita gente não sabe, não sabe que não sabe, e não sabe que sofre, mas sofre, sofre por não saber que sofre, sofre, por todas as coisas do mundo do avesso, não sabe que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, não há amanhã, todo mundo precisa saber, que não há amanhã, que devemos nos amar uns aos outros no instante já do presente. Por isso, pra aliviar a dor, trancado no meu quarto de pijama, eu ouço Belchior, com sua Velha Roupa Colorida. Meu Deus, meu Deus, não abandoneis os que não sabem, fazei com que saibam, Salvador do Mundo, salvai-os.

Senhoras e senhores, por gentileza e obsequiosamente, ao sair do recinto, apaguem a luz, dêem descarga, e durmam em paz.

O OLHO QUE MELHOR ME VÊ

Eu sou do tamanho olho que me vê!
* A foto também é minha e o olho é da Vivinha, minha mulher.

"A lição do amigo"


O “poeta-interior”: a pré-lição de Josué*

Preso entre poeira e montanhas (quase as últimas de Minas Gerais) nasce oficialmente o poeta Josué Borges de Araújo Godinho em Presidente Olegário, cidade distante 428Km de Belo Horizonte. Nesse local também aporta o Cometa Itabirano/Belorizontino no dia 08 de Julho de 2006. Esta matéria é necessária na medida em que na anterior tratamos do “desaparecimento” dos jovens poetas de Minas Gerais nas Zonas de Invenção Poesia &, de Belo Horizonte.
Propomos, assim, ler um pouco a dinâmica das coisas que se dizem poéticas à luz do dia-a-dia e vice-versa. As pessoas já acham estranho a proposta do “fim da poesia” quando explicada minuciosamente, enquanto um novo começo. O melhor método encontrado acaba sendo fazer o contrário: abordar o “fim da poesia” com a introdução do dia-a-dia em seu meio e, assim, caracterizar o seu “dissolvimento” ao se assemelhar à um cotidiano antes, aparentemente, órfão dela. Ao final, qualquer clichê poético torna-se cotidiano. E, no mínimo, qualquer cotidiano é um clichê poético.
A viagem para Presidente Olegário, ou P.O. para os íntimos moradores, é longa. Dura uma noite de quem parte da Belo Horizonte. Chega-se em Patos de Minas e ruma-se para PO. Cidade pequena localizada em um plano sobre uma montanha. Também com seus montinhos é simpática, acolhedora, poética. Para uns que ficam pode ser uma prisão. Lugar onde todos sabem e dão notícias de todos como as curtas cidades mineiras são. As imagens (fotos, descrições, etc.) do lugar apontam uma vontade para o crescimento.
Uma vez que a visita à cidade tinha como motivo o lançamento do primeiro livro do poeta, imaginou-se como isso seria possível dentro de uma “Festa da Produção” local. A imagem se construía com animais sendo submetidos em rodeios estúpidos, calças “tora-bago”, “maria-bretêras” e tudo o mais que os enfeitam. Como é possível acontecer um lançamento de poesia ali? E aconteceu. O dia do lançamento foi um dia de festa no cotidiano daquelas pessoas. Com todo tipo de pessoas, aquele cotidiano se extravasou com os poemas de Josué e o seu movimento poético. O dia-a-dia no poema. A sua poesia retirada do dia-a-dia. A poesia se dissolve e foi dissolvida.
Não especificamente arquitetado, o poeta contemporâneo revela seu texto e seu conteúdo em um jorro de explícito desejo de vida e não de se separar dela. Ele está nela. Seus poemas em outras línguas dissolvem a vontade de se aproximar das várias realidades lingüísticas e não de separá-las dos leitores de um português apenas. O poeta contemporâneo é também um “poeta interior” que se diz em seu poema mais do que no dia-a-dia se diz. É ali, no cotidiano e no poema, que ele se vende mais. O poeta quer se libertar, mas está ali, está preso. Sua poesia pode demonstrar isso claramente.
Nesse exemplo, podemos extrair que o poeta dito “da capital” deve aproveitar melhor o espaço e não apenas se lançar nele com um livro, sua proposta. O poeta de uma Belo Horizonte miúda, onde todos se conhecem, deve se conhecer e conhecer aos outros poetas, assim como o faz aquele do interior que se volta ávido por uma BH de poesia fragmentada.
O poeta de Belo Horizonte deve dizer aos outros o seu dia. Ser o dia. Essa é a pré-lição natural de Josué. Esse é o primeiro modelo do fim de uma poesia separada do dia. Simplicidade replicada do dia. O “poeta interior” manifesta os clichês junto às rimas pobres e seus enfeites possíveis. Artifícios corroboram a necessidade da forma ou a falta dela no poema. A dedicatória constante é sinal de um link entre a poesia e o mundo do poeta. O livro lançado, repleto de poemas com esses traços, é reflexo da festa que ali acontecia. Fotografou-se a fotografia. A responsabilidade do poeta contemporâneo cresceu, fica maior a cada segundo. Ele segura a arma com a qual está se matando. Ele a lê e não mais a decora. Ele a vive e não mais a provoca. Ele não esnoba com a poesia. Ela é esnobe. A poesia deve ser realmente de todos e todas.
Tudo isso para dizer que os poetas de Belo Horizonte devem se ver. Também devem ver o seu interior. Ver o interior de Minas e seus poetas talvez mais do que o inverso como vem acontecendo. Isso é dito, pois os do interior conseguem ver mais o dia e a noite em sua poesia do que o contrário.
Pelo que se lê atualmente nas preocupações dos poetas com as formas visuais do poema, com o lúdico-poético, e com a poesia acima do poema, pode-se dizer que o peso da poesia que se pratica hoje, no interior e nas capitais, está na capacidade de se tecer provocações em sua sintaxe carregada de conectivos. Pensa-se nesses enquanto gramaticais ou fazendo esse papel.
A partir desses valores contemporâneos, pode-se dizer que Josué ilustra essa poesia muito bem.

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*Publicado originalmente no Jornal O Cometa em Julho/2006

** A foto é minha.


Esse é um texto que o Pablo escreveu, sobre o meu livro, o Zigoto, e Pablo publica esse texto no Cometa de julho de 2006, e é por aí, por estas e outras, entranhadas e implicadas, assim e assadas, devaneadavãmente, pelo que é e o que a parceria da amizade tem representado, que Pablo é um amigo, um forte amigo.

Pablito, valeu mesmo cara, forte abraço.

Era só isso que eu queria.



PARA VER AS MENINAS

Silêncio por favor
Enquanto esqueço um pouco
a dor no peito
Não diga nada
sobre meus defeitos
Eu não me lembro mais
quem me deixou assim
Hoje eu quero apenas
Uma pausa de mil compassos
Para ver as meninas
E nada mais nos braços
Só este amor
assim descontraído
Quem sabe de tudo não fale
Quem não sabe nada se cale
Se for preciso eu repito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito
Porque hoje eu vou fazer
Ao meu jeito eu vou fazer
Um samba sobre o infinito

Paulinho da Viola

Era só isso que eu queria, mais nada, só por alguns instantes, ainda que pausados em mil compassos, parar um instante, ver as coisas passando, as pessoas correndo correndo correndo, tudo acontecendo, eu quero essa sorte de ver as meninas, de sentir os meus defeitos, de escutar o som do silêncio dos meus gritos, desesperadamente me desesperar, derramando poesia e melancolia, bebendo poesia e melancolia, triste canção, cantar a canção dos poetas dos boêmios dos mendigos, cantar a canção dos desvalidos, entoar, como "buenos borrachos", a embriaguez de todos os dias, a embriaguez dos filhos da merda, dos filhos do caos, dos filhos do barro negro, queria cantar uma canção que falasse das coisas das pessoas dos dias das noites dos sóis e luas e céus e tardes e lembranças e instantes e momentos e ventos e brisas ventanias temporais desgraças alegrias nostalgias, queria cantar uma canção sobre perfeição. queria uma canção que falasse de amor, um instante entre um compasso e outro, mais nada, uma canção sobre um infinito. é isso, paulinho, isso tudo que eu queria.