segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Quem matou a Taís?


Então, meio que no clima das discussões dos últimos dias, eu achei esse texto perdido aqui no meio de minhas coisas perdidas, e achei que ele servia, então, eu não quero saber quem matou essa rampera, mas que alguem matou e a discussão tá "agarrada", como diria minha amiga Vanessa, isso tá sim, então, lá vai. até.





ONDE

?

QUANDO

?

COMO

?

PORQUE

?

QUEM

?

QUEM

????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????????

eu não sabia, eu não sabia, como agora não sei, não sei que eu não sabia que não sabia que sabia o que não sabia. Eu não sabia, tu não sabias, ele não sabia, nós não sabíamos, vós não sabíeis, eles não sabiam. Ninguém sabia que eu não sabia que eu não sabia que não sabia. Eu não sabia. Eu não sei, tu não sabes, ele não sabe, nós não sabemos, vós não sabeis, eles não sabem. Eu não sei que eu não sei que não sei o que não sei. Eu não sei eu não sei eu não sei eu não sei eu não sei eu não sei. Ano que vem eu saberei, ah! Sim, eu saberei sim, eu saberei que eu não sabia onde nem quando nem como nem porque nem quem nem quem. Eu saberei, eu saberei eu saberei eu saborearei, o sabor de saber que eu não sabia, eu não sabia que essa noite está tão linda, tão linda tão linda, tão linda a noite, tão linda, com o céu cheio de estrelas, um cri cri cri cri cri cri insistente de grilos grilando lá fora. E esse céu cheio de estrelas, e essa cidade que dorme, que dorme pensando na vida besta de todos os dias, de todas as idas e vindas e voltas e volteios, de todos os maridos e mulheres que chegam em casa às seis horas da tarde, cansados do cansaço do trabalho, cansados. Pro banho, pra janta, janta, a mulher, cansada, vai pra cozinha antes do banho, a janta, a janta do marido, das crianças carentes de pais, a novela das seis, o Profeta que perdeu seus poderes, o jornal local com suas notícias locais, a novela das sete não fala nada de nada, ainda assim, a família se reúne na frente da tê-vê, depois que a mulher preparou a janta pra família toda, toma banho, jornal nacional com a Fátima e o Bonner, sai sangue no jornal, sai sangue na cadeia nacional, atentado no Iraque, atentado no sub-governo estado-unidense no Iraque, atentado violento ao pudor, atentado nos jornais, “mas ta tudo bem, ta tudo bem, eu rabisco o sol que a chuva apagou”, por que depois da carnificina do jornal, a gente esquece tudo, porque tem o Paraíso Tropical, Copacabana princesinha do mar, Garota de Ipanema, o Leblon, Leblon não, o Leblão, ão, com ão mesmo, porque a língua portuguesa herdada da tradicional pátria lusitana é a única língua que tem o tão aclamado e particular ÃO, que belo ÃO, nos enchemos para dizer esse ÃO, sobretudo nós mineiros, que falamos, com o peito inchado, o nosso gostoso TREM BÃO, mas, tem sangue no jornal e as crianças não podem assistir ao Paraíso Tropical, porque é um programa inadequado para a sua faixa etária, então, elas têm que ter pesadelos a noite toda, porque só amanha elas poderão assistir ao Planeta Xuxa, ao Bob Esponja Calça Quadrada, às Três Espiãs Demais, então, elas assistem, depois assistem novamente os jornais. Começa tudo, tudo outra vez. Meu Deus, faz tanto tempo que eu estou fora de casa, não assisto aos jornais, nem as novelas, pra não sofrer o calvário de cada dia, pra não sentir as dores do mundo, não sentir, não sentir, não sentir, não sentir que eu não sabia, eu não sabia, eu não sabia, eu não sabia que eu não sabia que não sabia. Meu deus, quanta gente não sabe que não sabe, quanta gente indefesa, quanta gente não sabe que não sabe, quanta gente vive do pão e circo, da comida rarefeita, arroz feijão batata e diversão barata. Santo Deus do céu, quanta gente não sabe, que não sabe que não sabe, quanta gente precisa saber que o mundo anda complicado, tão complicado, mas não sabem, não saberão, eles não sabem. Eles precisam saber, precisamos saber, saber que devemos saber, que o mundo é complicado sim, Sebastião, mas o mundo é bão, é muito bão, mas precisamos saber que ele é bão, Sebastião. Agora eu sei, eu sei o que sempre soube, que o mundo é bão, mas ele está revirado do avesso do avesso do avesso, o avesso da dor, é a dor que dói mais, porque muita gente não sabe, não sabe que não sabe, e não sabe que sofre, mas sofre, sofre por não saber que sofre, sofre, por todas as coisas do mundo do avesso, não sabe que “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, não há amanhã, todo mundo precisa saber, que não há amanhã, que devemos nos amar uns aos outros no instante já do presente. Por isso, pra aliviar a dor, trancado no meu quarto de pijama, eu ouço Belchior, com sua Velha Roupa Colorida. Meu Deus, meu Deus, não abandoneis os que não sabem, fazei com que saibam, Salvador do Mundo, salvai-os.

Senhoras e senhores, por gentileza e obsequiosamente, ao sair do recinto, apaguem a luz, dêem descarga, e durmam em paz.

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