terça-feira, 17 de novembro de 2009

Coronel João da Cruz Borges

Estou no metrô de Belo Horizonte, estação Vila Oeste. O calor é infernal, quase insuportável e são onze horas da manhã do dia 16 de novembro de 2009. Havia dado minhas quatro aulas de redação da segunda-feira no CEFET e aguardava o trem de volta pra casa, sem pensar em nada que não fosse o almoço que me esperava aflito.
Na estação, avisto uma interessante figura a percorrer toda a extensão da plataforma. Aquela imagem é intrigante e diferente dos outros presentes. Pára diante de mim e me abençoa com "A paz de noss' Senhor Jesus Cristo" e repete o gesto adiante com uma mãe e sua filha.
Mas não foram apenas estes gestos que me intrigaram. Mesmo no calor de novembro, este senhor vestia-se magistralmente com um terno azul escuro e sapatos pretos. Trazia na mão esquerda um ramalhete verde de não-sei-o-que e uma bolsa a tira-colo com um guarda-chuva em um dos bolsos.
Entramos no mesmo vagão e, embora abundassem lugares, o senhor não se sentou. Em sua polidez, repetiu o gesto apertando cordialmente a mão de cada passageiro com um sincero "bom dia" e "a paz do Senhor".
Esse fato ocupou boa parte de meus pensamentos neste dia. Embora aquela figura fosse diversa de todos e do que estamos habituados a ver diariamente, acredito que o pensamento da maioria dos presentes fora o de que aquele senhor pudesse ser louco ou sofrer algum distúrbio qualquer. Em uma capital como Belo Horizonte, só mesmo sendo louco para sair cumprimentando e dando a paz de Deus a todo mundo, ainda mais a quem não se conhece. Mas, fiquei pensando, quem é que pode sofrer algum distúrbio, aquele polido senhor, ou nós outros, presos em nossa redoma de individualismo egoísta e narcisista? Em três anos de Belo Horizonte, foi a primeira vez que vi alguém feliz a dar bom dia e desejar a paz a dezenas de desconhecidos, como Francisco de Assis, o santo. Eu mesmo não sei se sou tão desenvolvido e despido de preconceitos a ponto de fazê-lo. E nossa humanidade ainda não evoluiu o bastante para isso.
O senhor trazia pendurado à roupa um crachá, escrito a mão, em que se lia: "Coronel João da Cruz Borges". Talvez um mensageiro de esperança e paz.
Deus esteja.
Amém.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Do avesso eu sou I

Há momentos em que tudo o que temos a dizer é este silêncio clandestino a nos consumir pelas beiradas. Nestes dias o desespero não é mais que uma afável companhia que, embora finjamos não ver, está sentado ao lado, sedando nosso destino e selando este momento inefável de supressão da realidade que desejamos.
Realidade, maldita porta escancarada a mostrar seus dentes seculares. Caninos carnívoros consumidores de sonhos e sonos. Meu silêncio te consome e se consome no teu silêncio, fera dos tempos e companheira das horas opacas. Realidade. Como gostaria de devorar-te como um bife à milanesa, servido na última ceia do último dia destes tempos indecisos em que nem a cólera, nem a revolta conseguem trazer à tona o que restava de esperança.
Vem, realidade absurda, saquear o meu quinhão de dignidade, o que me resta de hombridade, de virilidade e honestidade. Seja lá o que isso for. Atropela o vazio absoluto que criaste no meio da vida em sociedade, da vida em comunidade, civilizada.
O que bebo de ti,
persona non grata, é o veneno com que me mato, é o veneno com que te assassino. Cada gota que injetas em minh'alma, devolvo-te multiplicada em vômito, em asco, em podridão. De resto, além da acidez de meu vômito, tens o meu silêncio, tão absoluto quanto o vazio que constróis e que, que sabe, um dia, no último tardar da esperança, teu vazio te possa consumir e devolver-nos o Nada: a sombra adstringente de tudo o que não chegamos a ser.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Manifesto retornável

Depois de algum tempo na inércia inconsequente dos tempos de professor obsoleto, obtuso, oblíquo e omisso, retorno à blogosfera para continuar fazendo nada. Nada sobre nada, e é isto que me consome, que me consola, que me conduz. Fazer o nada, a antipoesia, a maldição poética dos nossos novos tempos, fazer o que se deve e o que não deve, desfazer e desfazer-se. desfazendo-nos na ignorância terrivel da vida humana.
Prefiro fazer ouvir sambas, sobre nadas e infinitos. Humanos são muito humanos. Poesias são muito poesias e as escolas seguem recapitulando, recapiando, ratificando as palavras do Mário, o de Andrade macunaímico, de que a escola é apenas a pena na imbecilidade de muitos e o orgulho de poucos, é nada, nada vezes nada ao quadrado. e ficamos assim, cada um no seu quadrado, ainda que o quadrado seja um só, na igualdade absurda e adstringente.
Vou fazer um samba antipoético, propagar a antipoesia, a antiarte, a antihumanidade, e fodam-se todos os ismos, lirismos. Eu sou egoísta, eu sou ego, antiartista. Não venha me dizer que estou enganado, que eu estou por fora. Estou in e estou out, EU SOU IN E OUT, dentro e fora, centro-centripeta-centrifuga. Eu sou o que sou e vou mudar, pra melhor ou pra pior. E não quero nem saber.
Poesia é um estado de alma, de raiva, de amor, de revolta, de devassidão. Poesia é nada. E nada é tudo.
Poesia = falta do que fazer = picaretagem = poetas falidos = prolixidade = nada x nada.
Poesia = manifesto = devassidão = tudo x tudo = bobagem = antipoesia = #@*

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Atentado violento ao pudor

diz:Crianças passandofome na rua.

domingo, 22 de junho de 2008

Educar o Olhar


A fotografia como metáfora para educação do olhar

Se tomarmos ao pé da letra o verbo “fotografar”, então teremos a atividade de escrever com a luz. Nesse sentido, a escrita com a luz pode ser considerada como uma metáfora oportuna e necessária para uma educação do olhar.

O que é o olhar humano senão um registro único, individual, portanto, impossível de se repetir, de tudo quanto é escrito pela luz. Como registro único do que se vê, o olhar é, indispensavelmente, interpretação, transformação e reescrita do que se vê, gratuitamente, em tudo que o mundo nos proporciona. Uma vez visto, registra-se na memória e nos sentidos de quem vê.

Da mesma maneira que o olhar humano registra individualmente o que se vê, também a fotografia faz seus registros particulares. Uma fotografia é, necessariamente, um registro individual, ou seja, a cena fotografada será sempre uma leitura daquele que fotografa. A foto, portanto, também é impossível de ser repetida (digo repetida, e não reproduzida), por quem quer que seja, nem mesmo aquele que fotografa. Uma fotografia é sempre um trabalho único.

O trabalho do fotógrafo, ou seja, daquele que escreve/registra através da luz, através de imagens, assemelha-se ao do escritor, que escreve por palavras. Ou seja, o escritor, antes de mais nada, olha, observa o mundo que o rodeia, ele sente e pensa as cores do mundo para que possa registrá-las, grafá-las através da linguagem escrita. Assim é o trabalho do artista, observar, olhar e sentir o mundo que o rodeia. Um poço de sensibilidade a transformar o mundo com impulsos poéticos.

Impulsos poéticos são raros no mundo em que vivemos. A fugacidade do mundo contemporâneo deseduca constantemente nossos sentidos. Mal vemos, mal comemos, mal conversamos, mal dormimos, ouvimos mal e mal fazemos amor poeticamente. Acostumados a correr, corremos sem perceber que corremos. Privamos nosso olhar e nossos demais sentidos da educação necessária do dia-a-dia.

Cidades e mundos modernos são mais que concreto e asfalto, buzina de auto-móvel e fumaça de óleo diesel. Devemos reeducar nosso olhar, ver alem do que se vê, ainda somos humanos, ainda que demasiadamente, seres inigualáveis. Ainda somos poetas. Constantes fazedores de imaginações, ainda somos inegáveis photóphilos, façamos poesias grafando nossas imagens.

Prof. Josué Borges



O texto e a foto são meus.


quinta-feira, 5 de junho de 2008

Ser e Tempo


Paciência

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...

A vida não pára!...
A vida é tão rara!...



Composição: Lenine e Dudu Falcão

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Criatividade comanda

Engenharia Química da UFBA: Pergunta feita por professo da matéria Termodinâmica, em sua prova final (esse professor é conhecido por fazer perguntas do tipo “Por que os aviões voam?” em suas provas finais.) Sua única questão, nessa prova, foi:

“O inferno é exotérmico ou endotérmico? Justifique sua resposta.”

Vários alunos justificaram suas opiniões baseadas na Lei de Boyle ou em alguma variante da mesma. Um aluno, entretanto, escreveu o seguinte:

“Primeiramente, postulemos que o inferno exista e que esse é o lugar para onde vão algumas almas. Agora postulemos que se as almas existem, elas devem ter alguma massa e ocupar algum volume. Então, um conjunto de almas também tem massa e também ocupa um certo volume. Assim, a que taxa as almas estão se movendo para fora e a que taxa elas estão se movendo para dentro do inferno? Podemos assumir seguramente que, uma vez que uma alma entra no inferno, ela nunca mais sai de lá. Por isso não há almas saindo. Para as almas que entram no inferno, vamos dar uma olhada nas diferentes religiões que existem no mundo e no que pregam algumas delas hoje em dia. Algumas dessas religiões pregam que se você não pertencer a ela, você vai para o inferno... Se você descumprir algum dos 10 mandamentos ou se desagradar a Deus, você vai para o inferno. Como há mais de uma religião desse tipo e as pessoas não possuem duas religiões, podemos projetar que todas as almas vão para o inferno.

A experiência mostra que pouca gente respeita os 10 mandamentos. Com as taxas de natalidade e mortalidade do jeito que estão, podemos esperar um crescimento exponencial das almas no inferno. Agora vamos olhar a taxa de mudança de volume no inferno. A Lei de Boyle diz que para a temperatura e a pressão no inferno serem as mesmas, a relação entre a massa das almas e o volume do inferno deve ser constante. Existem, então, duas opções: 1) Se o inferno se expandir numa taxa menor do que a taxa com que as almas entram, então a temperatura e a pressão no inferno vão aumentar até ele explodir, portanto EXOTÉRMICO. 2) Se o inferno estiver se expandindo numa taxa maior do que a entrada de almas, então a temperatura e a pressão irão baixar até que o inferno se congele, portanto, ENDOTÉRMICO. Se nós aceitarmos o que a menina mais gostosa da UFBA me disse, no primeiro ano: “Só irei pra cama com você no dia que o inferno congelar”, e levando-se em conta que AINDA NÃO obtive sucesso na tentativa de ter relações amorosas com ela, então a opção 2 não é verdadeira. Por isso, o inferno é exotérmico.

O aluno tirou 10 na prova.

Moral da história:

“A mente que se abre a uma nova idéia jamais volta ao seu tamanho original.” (Albert Einstein)

“A imaginação é muito mais importante que o conhecimento.” (Albert Einstein)

“Um raciocínio lógico leva você de A a B. A imaginação leva você a qualquer lugar que você quiser.”(Albert Einstein)